A pintura e o sagrado
por Rayhatã Pataxó
A natureza nos dá vida, nos alimenta, nos fortalece e nos protege a todo momento, e são por esses e outros motivos que acreditamos tanto que precisamos a cada momento cuidar dessa mãe. Nossos pais e anciões sempre nos ensinaram a cuidar de cada centímetros de terras que nos é dado, pois é dela que tiramos o sustento de cada dia, a nossa medicina, nosso ar e nossa proteção, seja ela através dos incensos, das resinas, folhas, raízes ou através do rapé. Essa proteção vem também através das nossas pinturas.
Para nós, povos indígenas, as pinturas vão muito além do que uma redução de beleza ou vaidade. Cada traço tem seus significados, simbologia e demarca também a que povo pertencemos. Acreditamos que a pintura é uma proteção aos nossos corpos, ela nos fortalece para as lutas diárias nos dando força para cada desafio.
O Urucum, o jenipapo e a argila são os principais materiais dados pela natureza para fazermos nossas pinturas. É do Urucum que tiramos a cor vermelha, símbolo da força, da luta e símbolo dos nossos encantados, espiritus que nos guia e nos fortalece. O Barro/Argila representa a vida e o nosso contato com a terra. Segundo uma lenda do povo pataxó, foi através do contato da chuva com o barro/terra que nasceu o primeiro guerreiro que tinha o nome de Txopay. Txopay nasce encarregado de proteger a vida, a mata e o seres. O Jenipapo representa a força e o sangue sagrado que corre na veia de cada guerreira e de cada guerreiro que luta protegendo seus povos e suas terras.
Então é isso que traz o significado da pintura? Não! Para nós não é somente os elementos usados que tem uma simbologia, os traços também possuem os seus significados. Para cada povo, cada pintura traz uma história e uma importância. Exitem pinturas que são tiradas de besouros, preguiças, onças e diversos outros animais e elementos vindos da natureza, mas, também há pinturas que são trazidas da criatividade e do dom de cada um. Acreditamos que cada um tem um dom dentro da sua comunidade, seja para plantar, colher ou curar, e a pintura não é um caso isolado. Ter esse dom é uma grande responsabilidade, pois é ter também um comprometimento espiritual. A pintura faz com que os nossos corpos e as nossas almas sejam ligadas diretamente as matas e nos faz ter uma ligação carnal e espiritual diretamente aos nossos Nakiyã (Ancestrais).
A pintura é essa grande simbologia, e para além da beleza dos traços e das cores ela traz todos esses segredos, historia e a força desses povos que mesmo sofrendo ataques e sendo exterminados a cada dia, não deixa de ser grato e nunca deixará de cuidar dessa imensa mãe terra. A cada um novo ciclo uma nova pintura, a cada necessidade uma nova pintura, seja no casamento, quando fazemos nossa transição de criança para adulto ou até mesmo no processo de fortalecimento de nossos corpos e nossa vida. A pintura estará presente em todas as etapas da nossa caminhada, nos fortalecendo e nos guiando com a força dos nosso antepassados.





